O título estadual de 1999 ensinou o significado da mística
da camisa a muitos rubro-negros. No começo daquele ano, até os torcedores mais
fanáticos sabiam que São Januário seria o destino natural do troféu. O Vasco
manteve a base campeã da Taça Libertadores do ano anterior, e reforçou-se bem.
O Flamengo, por sua vez, tinha um elenco formado por jogadores medianos,
desacreditados e inexperientes – Romário era a exceção. Os outros times grandes
também eram considerados presas fáceis: o Botafogo acumulava fracassos, e o
Fluminense vivia seus piores dias, mergulhado nas divisões inferiores do Campeonato
Brasileiro.
PRIMEIRO TURNO
As primeiras rodadas da Taça Guanabara confirmaram a tese:
Fluminense e Botafogo tropeçaram em times pequenos, dando adeus à briga pelo
título. O Vasco goleava todo mundo. E o Flamengo só ganhava no sufoco. Aos
trancos e barrancos, o time do técnico Carlinhos conseguiu chegar à última
rodada com o mesmo número de pontos que os cruzmaltinos. O problema é que o
Vasco tinha um saldo de gols muito superior, e entrou em campo jogando pelo
empate. Mas nossos guerreiros ignoraram o favoritismo do adversário, e partiram
para cima, como há muito tempo não se via. Aos vinte minutos de jogo, o Mengão
vencia por inacreditáveis dois a zero, gols de Athirson e Romário. Odvan
descontou ainda no primeiro tempo, mas os rubro-negros não se abateram, e o
placar se manteve até o fim. Apesar de ser apenas um turno de estadual, aquele
título lavou a alma da Nação, que não aguentava mais ver o time ser humilhado
pelo maior rival.
SEGUNDO TURNO
Ganhar a Taça Rio se tornou questão de honra para o
dirigente vascaíno Eurico Miranda, que antes do campeonato havia dito que o
título estadual já tinha dono, e os demais clubes brigariam pelo vice. O clube
gastou o que não tinha para repatriar Edmundo, e o investimento “valeu a pena”.
O Vasco entrou em campo no último jogo da Taça Rio precisando novamente de um
empate para ficar com o título e forçar a decisão contra o campeão da Taça
Guanabara. Se o Flamengo vencesse, conquistaria o Carioca antecipadamente. Deu
Vasco: 2x0, dois gols de Edmundo.
A FINALÍSSIMA
Se o duelo da Taça Rio terminasse empatado, o Flamengo teria
a vantagem de dois resultados iguais na grande decisão. Mas a vitória do Vasco
reascendeu o conceito da superioridade cruzmaltina, e trouxe à tona as
limitações técnicas do Flamengo. Para piorar, Romário foi vetado da primeira
partida minutos antes do time subir ao gramado devido a uma contusão muscular.
O jovem Reinaldo, que não havia marcado sequer um gol pelo time profissional,
foi escalado no lugar do artilheiro do campeonato. O primeiro tempo terminou um
a zero para o Vasco, gol de Edmundo. Na etapa final, Fábio Baiano, improvisado
no meio de campo, empatou, dando números finais a partida, e sobrevida as
esperanças rubro-negras.
No dia 19 de junho, os times decidiram o campeonato. Só a
Nação Rubro-Negra acreditava no título, tamanha a superioridade do rival.
Romário foi escalado, mas voltou a sentir a contusão e foi substituído logo no
início, por Caio. Todos esperavam um abatimento natural do Flamengo devido à
ausência do principal jogador, mas aconteceu exatamente o contrário.
De repente, os limitados Pimentel, Fabão e Jorginho começaram a dividir
todas as bolas, como se estivessem batalhando pelo último prato de comida. Os pratas da casa Athirson, Luís Alberto, Fábio Baiano e Rodrigo
Mendes, por sua vez, passaram a jogar com a mesma garra dos tempos de infância - quando tinham que lutar com milhares de garotos por um espaço no time - tamanha a disposição. O desacreditado Leandro Ávila, que
sofria há anos com contusões e praticamente estreava pelo Flamengo naquela
final, voltou a ser um grande jogador e comandou a transição entre a defesa e o
ataque. O questionado goleiro Clemer foi eficiente como nunca. E Beto e Caio,
considerados eternas promessas até então, jogaram o futebol que os levou a
seleção olímpica em outros tempos.
O primeiro tempo terminou zero a zero. Antes da etapa final,
os guerreiros rubro-negros se abraçaram no círculo central, formando uma
corrente de união que incendiou a torcida. Dali em diante, o grito de “Meeengooo”
só foi interrompido quando a falta cobrada por Rodrigo Mendes, a quinze minutos
do fim, bateu suavemente na rede protegida pelo arqueiro Carlos Germano.
Naquele momento, as 60 mil almas rubro-negros presentes no Maracanã soltaram
o grito entalado na garganta: Gol. Gol do título. Gol da grandeza. Gol que
ensinou a minha geração a acreditar que o Flamengo pode. Gol que abriu caminho
para mais um tricampeonato, concretizado dois anos depois, por Petkovic.
Naquela noite, um programa de TV iniciou com a imagem da falta batida por
Rodrigo Mendes ao som de Jorge Bem Jor: “É falta, na entrada da área. Advinha
quem vai bate? É o camisa dez da Gávea!”
A edição do jornal O Glodo do dia seguinte sintetizou o
título: “O Flamengo pode não ter uma qualidade técnica superior ao Vasco, mas
teve durante todos esses meses algo que o Vasco não teve em dia algum: o Flamengo teve alma de campeão” (Fernando
Calazans).


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