ENTREVISTA COM NUNES

Ao longo dos meus 28 anos, encontrei com o Artilheiro das Grandes Decisões algumas vezes. Numa delas, fui tomado pelo tino jornalístico, e fiz a entrevista que compartilho abaixo: 

Fábio: Qual a melhor recordação que você guarda do tempo em que jogava no Flamengo?

Nunes: O ambiente era fantástico. A amizade que existia entre jogadores, comissão técnica e dirigentes motivava a todos. Eram pessoas simples, que se respeitavam e tinham objetivos em comum. Sabíamos o que queríamos, e por isso alcançamos resultados tão expressivos. Sinto saudade daquela época.

Videira (SC), dezembro de 2008

Fábio: Na adolescência, você foi juvenil do Flamengo. Qual a sensação de retornar alguns anos depois e ser uma peça fundamental em um time multivencedor?
Nunes: Eu não queria ter saído do Flamengo, mas naquela época, interesses extracampo – que prefiro não citar – já faziam parte do futebol. Minha volta ao Flamengo foi cercada de grandes expectativas por parte da torcida e da imprensa. Com dedicação, ajudei o grupo a conquistar resultados que ficarão marcados para sempre na história do clube.

Fábio: Como era a sua relação com a torcida do Flamengo, e como passou a ser depois que parou de jogar?
Nunes: A torcida sempre reconheceu o meu trabalho, mesmo nos momentos que as coisas não saíam como esperávamos. Era comum a galera gritar o meu nome no Maracanã, e isso servia como motivação para suar a camisa pensando em retribuir. Hoje, os torcedores ainda reconhecem o que fiz. É gratificante receber o carinho de crianças de 10, 11 anos, que nem eram nascidas quando eu jogava.

Lages (SC), maio de 2013

Fábio: Além de ser um grande goleador, você fazia a diferença nas finais, marcando gols decisivos. Qual a receita para brilhar em jogos de tamanha importância?
Nunes: Eu sempre me preparei para decidir, por isso não tremia, fosse quem fosse o adversário. Muitos jogadores de renome não se destacam em partidas decisivas porque não se preparam da forma adequada. Ficam mais preocupados com os holofotes. Eu me concentrava no jogo em si, e por isso decidia.

Fábio: Foram vários gols marcados em finais de campeonato. Você considera algum deles o mais importante?
Nunes: Todos tiveram um sabor especial, para mim, para o grupo e para a torcida. Os gols contra o Atlético Mineiro e o Grêmio, nas finais dos Brasileiros de 80 e 82, garantiram os primeiros títulos nacionais ao Flamengo, enquanto os dois gols contra o Liverpool, em Tóquio, tornaram o clube campeão do Mundo, e o gol contra o Vasco, no Carioca de 81, fez a galera soltar o grito de campeão depois de três jogos... Enfim, é difícil escolher um. Todos foram muito comemorados. 

O PRIMEIRO HERÓI DO FLAMENGO

No final do século 19, os cariocas eram apaixonados pelas Regatas. Nos domingos, uma multidão se dirigia para a beira do mar a fim de assistir as provas. Em 1895, cada praia já tinha seu grupo de remadores. A exceção era o Flamengo. Sendo assim, os atletas de Botafogo, São Cristóvão, Caju e Santa Luzia iam para a orla que concentrava as moças mais belas do Rio de Janeiro desfilar seus músculos. 

Incomodados com a situação, alguns moradores do Flamengo decidiram criar o próprio grupo. Juntaram as economias e compraram um barco de segunda mão, ao qual batizaram de Pherusa.


No começo da tarde do dia 6 de outubro, seis jovens iniciaram a primeira – e única – viagem do barco. Eles saíram do Caju, com destino ao Flamengo. No início da travessia, o céu estava azul e ensolarado, porém, quando a Pherusa já havia se afastado da costa, nuvens carregadas surgiram, seguidas por raios, trovões e uma forte chuva. O vento arrancou a vela, e o barco virou. Aos rapazes, restou apenas agarrar-se no casco e esperar por ajuda. Porém, à noite chegou, e ninguém apareceu.

Surge então o primeiro herói do Flamengo (e olha que o clube ainda nem havia sido criado oficialmente). Joaquim Bahia, o melhor nadador a bordo, decidiu nadar até a praia em busca de socorro, enfrentando ondas gigantescas com bravura, tendo como única orientação às luzes de uma festa que acontecia na igreja da Penha. Ao chegar à areia, Joaquim pediu ajuda aos donos de uma lancha, que foram resgatar os demais remadores.

Primeiro escudo do Flamengo

No mês seguinte, os jovens fundaram o Grupo de Regatas do Flamengo (que em 1902 passaria a se chamar Clube de Regatas do Flamengo). A assembleia aconteceu no dia 17, mas a data oficial foi antecipada para o dia 15, para coincidir com o feriado da Proclamação da República. Eles não imaginavam que estavam dando à luz a uma paixão que incendiaria o país, transcendendo gerações e modalidades esportivas.

OS 11 MAIORES DA HISTÓRIA SÓ JOGARAM JUNTOS 4 VEZES

Raul, Leandro, Marinho, Mozer e Júnior. Andrade, Adílio e Zico. Tita, Nunes e Lico. 

Todos sabem que esses onze tenores derrotaram o Liverpool por 3x0 em 13 de dezembro de 81, e pintaram a Terra de preto e vermelho. 

Em pé: Leandro, Raúl, Andrade, Mozer, Marinho e Júnior.
Agachados: Lico, Adílio, Nunes, Zico e Tita


O que muitos desconhecem é que o Flamengo só entrou em campo com essa formação em outras três oportunidades:

26.11.81 (Decisão do 3º Turno do Campeonato Carioca)
Volta Redonda 1x5 Flamengo (Lico, Nunes, Adílio, Zico e Adílio)

29.11.81 (Primeira partida da Decisão do Campeonato Carioca)
Flamengo 0x2 Vasco da Gama

16.02.82 (Campeonato Brasileiro)
São Paulo 3x4 Flamengo (Nunes, Lico, Tita e Zico)   


Porém, o técnico Carpeggiani conseguiu manter a base na maioria dos jogos disputados no apogeu (de novembro de 81 e abril de 82). O goleiro Cantarelli, o zagueiro Figueiredo e o meia Vitor foram os reservas que mais atuaram. O lateral direito Nei Dias e os atacantes Peu e Anselmo também jogaram algumas vezes, substituindo Nunes em períodos de contusão.

A MÍSTICA DA CAMISA

No começo de 1927, a Liga Carioca decidiu punir o Flamengo porque o clube emprestou seu campo ao Paulistano para alguns amistosos - o Paulistano fora proibido de jogar em seu estado por combater o amadorismo no futebol. A exclusão do campeonato carioca daquele ano seria o preço pago pelo Fla. Para não ficarem parados, vários craques da base campeã de 1925 migraram para outros clubes.   


Porém, um clamor popular reforçado por torcedores e dirigentes de clubes adversários levou a Liga a recuar e incluir o mais amado da cidade na competição. O fato é que o time se desfizera, e não havia tempo para formar uma equipe competitiva.

O desfecho da história é narrado pelo rubro-negro Ruy Castro, no livro O Vermelho e o Negro:

“Então aconteceu esta coisa linda: jogadores aposentados ou semi-aposentados apresentaram-se na rua Paissandu para jogar. Reservas e juvenis foram promovidos. Com eles, armou-se às pressas um time, e o Flamengo, rodada após rodada, foi superando não só os adversários, mas sua própria falta de pernas. Quando os jogadores mal se aguentavam em pé, o coração assinava a súmula e entrava em campo”.


O Flamengo venceu 13 dos seus 18 jogos, e sagrou-se campeão. O título consolidou-se após a vitória por 2x1 sobre o América na última rodada. Nascia a mística da camisa rubro-negra. Anos mais tarde, o dramaturgo tricolor Nelson Rodrigues declararia:

Há de chegar talvez o dia em que o Flamengo não precisará de jogadores, nem de técnicos, nem de nada. Bastará à camisa, aberta no arco. E diante do furor impotente do adversário, a camisa rubro-negra será uma bastilha inexpugnável”.      

LICO, NA OPINIÃO DE ZICO

Depoimento de Zico sobre Lico, no livro “ZICO CONTA SUA HISTÓRIA”, página 61

“Se eu tivesse que fazer uma seleção dos melhores jogadores do Flamengo de todos os tempos, o Lico tinha que estar nela. Foi ele que arrumou aquele time. O Lico sabia tudo de bola, de colocação em campo, de dar o ritmo a uma partida; era ele que dava a cadência de nosso time".


"Com o Lico, as triangulações pela esquerda começaram a sair também, assim como pela direita. Ele veio dar mais uma alternativa de ataque ao time. E como ele fechava mais o meio de campo, eu podia me soltar para ir à frente. Prender a bola no ataque era com ele mesmo, o que facilitava a vida da nossa defesa". 


"Enfim, pode ser que o Lico não tenha recebido todo o reconhecimento que merecia, mas se forem perguntar a qualquer um que jogava naquele time, todos vão dizer a mesma coisa. Com o Lico, nossa equipe ficou completa”.

O LAGEANO QUE JOGOU NO FLAMENGO

Bem antes de ingressar na política, o lageano Celso Ramos (1897 – 1996) foi atacante do Flamengo. Entre os anos de 1917 e 1926, ele entrou em campo quatro vezes, e fez um gol. Nesse período, seu pai, Vidal Ramos, residiu no Rio de Janeiro – então Capital da República –, atuando como senador por Santa Catarina. 


Não existem imagens do lageano defendendo o Flamengo. A distância de tempo entre as partidas é bem razoável, e não há uma explicação documentada para tal fato. Provavelmente, Celso era convidado por amigos influentes no clube para vestir o manto sagrado quando ia visitar a família no Rio. Vale ressaltar que estamos falando de uma época em que o futebol era amador, e os jogadores não tinham vínculo empregatício com os clubes.

Na política, Celso seguiu os passos do pai. Governou SC de 61 a 65, e foi senador entre 67 e 75.  


JOGOS DE CELSO RAMOS PELO FLAMENGO

02.12.1917 – Campeonato Carioca
Flamengo 3x1 Vila Isabel (1 gol)

06.10.1918 – Campeonato Carioca
Flamengo 2x2 Fluminense

06.08.1925 – Amistoso
Flamengo 5x1 Gragoatá

11.04.1926 – Amistoso 
Flamengo 1x0 Barra Mansa

25 DE ABRIL DE 1982

Há 32 anos, o Flamengo ganhou o Campeonato Brasileiro pela segunda vez, ao derrotar o Grêmio por 1x0, no estádio Olímpico. Foi uma das decisões mais disputadas da história do futebol nacional, pois reuniu os dois melhores times brasileiros dos anos 80.


Na foto, as camisas retrôs de dois heróis da conquista. Nunes, que fez mais um gol decisivo. E Raul, que fechou o gol, garantindo a vitória.

PUBLICAÇÃO HISTÓRICA

Jornal O IMPARCIAL, de 21 de janeiro de 1921.


Foi a primeira vez que o atual escudo do Flamengo foi publicado em um impresso.